RESISTÊNCIA? SOU DES-EXISTÊNCIA
Barata Cichetto e Amyr Cantusio Jr.
Video poema em prosa de Barata Cichetto. Trilha Sonora: Amyr Cantusio Jr. - Tragical Textures of a Distant Earth (Overture) . Filme Incidental: A Árvore dos Enforcados, 1959.
 

Acordo a uma hora. A uma hora qualquer. Há uma hora. A uma da tarde, uma da manhã. Que importa a hora? O problema é acordar. Acordar sem dormir. Amaldiçoo o dia e o próprio despertar. Existir é um fardo. Um árduo processo. A quem processo por me acordar? Acorda! Minha mulher me pede. E eu lhe peço a corda. Preciso matar outro leão. Todos os dias um, mas hoje não. Tenho fome de leão. Deixa quieto, depois eu como. Primeiro preciso trabalho. Que trabalho? Qualquer um. "Ah, não tem trabalho, seu idoso, horroroso, desastroso, monstruoso." Morro de fome em quanto tempo? Ótimo, assim poupo a corda, assim poupo a culpa. Acendo um cigarro... Tem cigarro? Tem, sim, comida não tem, mas tem cigarro e pão duro na geladeira. Então está bem. Trabalho não tem. Decência não tem. Tolerância não tem. Tem discurso político na Internet. Todos preocupados com Justiça, Bem Social. Todos socialistas, comunistas, preocupados com a decência, outros com a moral. Esqueceram alguma coisa, estou bem certo. Todos sabem, todos falam, todos entendem. E eu sei apenas que não quero saber de coisa alguma. Falam em Resistência: sou a Desistência. Des-existência. Tem remédio para continuar a dormir? Queria saber chorar. Preciso trabalhar. Não consigo pensar. Gostaria até que existisse algum Deus, só para eu poder xingar. Nem isso. Tenho que me contentar em olhar no espelho. E me xingar de filho da puta. Mas estou com fome e a imagem fica distorcida, borrada, enrugada. Esquecida. E quem disse que eu não tenho coisa alguma, que não tenho nada? Tenho, sim: a esperança. De morrer.
9/1/2019
https://youtu.be/XxpRuMyhons