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O HOMEM, O POETA E O GIRAÇOL
Barata Cichetto
Existia um poeta, que entre falsos amores, perdido num tempo, amarrado a um sonho, perdia sua existência em desejos nunca cumpridos, em orgasmos maltratados e sonhos esfacelados. Um poeta que sempre buscava o que não sabia e perdia antes mesmo de achar. Um homem que abraçara a escuridão quando a luz lhe fugira feito pombas assustadas.

Existia um poeta cuja própria morte o seduzia, o combalia e se desnudava. Um homem cuja arte era pintada em negro e pinçada em dor. E se debatia o homem dentro de sua própria escuridão e combatia o homem, incapaz de lutar, dentro de sua própria imensidão.
Existia um homem que acreditando nas palavras de outro, sabia ser fácil abraçar a poesia, mas muito, muito difícil beijar sua própria vida. Um homem e um poeta existiam prontos a morrer por causas que não os queriam, por musas desrespeitosas e insensíveis. Sem saber que musas não são feitas aos poetas e os poetas não são feitos ás musas.

Dormia sempre o poeta com seus sonhos e acordava sempre encharcado de suor de pesadelos nus que o oprimiam e o sufocavam, até ter novamente desejo de morte. Porque a morte era sempre sua concubina e ele sabia que, devoradora de corações ela nunca o deixaria em paz.

E assim o poeta e o homem se digladiavam em seus sonhos, confundiam-se em suas vidas, cada um querendo tomar o lugar do outro. Hora era o poeta querendo se fazer homem - homem porque poeta é sempre menino -, hora era o homem querendo ser poeta - e portanto ser menino. E nenhum aceitava seu próprio lugar dentro do outro. Um era o homem, outro era o poeta. E ambos mentiam um ao outro.

E assim caminhavam, se amando e se odiando, o Homem e o Poeta. Se odiavam a cada dia e se iludiam de que poderiam estar livres um do outro, embora a verdadeira consumação e a verdadeira comunhão entre os dois, nenhum deles entendesse. Ambos tinham medo de si próprios. E do medo que um tinha do outro nascera um hediondo ser, nem homem nem poeta, apenas amante da morte e de suas amantes lésbicas.

Existia um homem que cavava diariamente sua própria destruição com o poeta ao seu lado, rindo e gargalhando. Cavando a sepultura com suas próprias mãos nuas, o homem percebia o poeta abraçado com a morte, achando que apenas seu próprio reflexo num espelho. E assim seguiam suas vidas, se acaso podemos de vida chamar tal mesquinha e escura existência.

Mas um dia, quando o homem e o poeta empenhados na mais ferrenha de suas batalhas pessoais chegavam ao limite de suas forças, cansaram de lutar entre si e jogaram suas armas ao chão. Ambos se abraçaram e choraram feito meninos e perceberam que nenhuma batalha entre eles teria um vencedor e principalmente a eles a morte não era nem a amante, nem o destino.

Transubstanciados e metamorfoseados, fundidos num só corpo e numa só alma. Eles eram agora um. O Poeta e o Homem. Nesse momento um sino tocou, na mais alta torre repicado pelas hábeis mãos do Universo chamou aquele novo ser que ali nascia. E foi ele, agora não mais apenas homem e nem mais apenas poeta, mas a fusão perfeita entre eles em direção a luz que o sino lhe indicava.

E pela primeira vez, aquele ser a quem chamaremos apenas de EU pode caminhar com a alegria da vida por campos forrados de giraçóis, pode caminhar pelos largos braços da felicidade sentindo a alegria da vida pulsar em suas veias. E pela primeira vez EU pode dizer que entende realmente ao sentido pleno da palavra AMOR.
10/2/2010
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.628 - Livro 973 - Livro 474

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