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Guga Schultze
Guga - batizado assim pelo irmão mais novo que, na impossibilidade
de pronunciar o nome Rodrigo, definiu o apelido - nasceu há muito
tempo atrás, numa cidade grande, quente e litorânea. Desdenhou desde
cedo a cultura oficial e, por isso mesmo, desenhou todos os seus
cadernos escolares que, destinados precocemente ao lixo, encantaram
milhares de baratas. Daí o gosto pelo papel guardado eternamente em
gavetas onde seu traço é devidamente apreciado pelas traças, seu
público fiel. Daí também o descaso com os originais que, se não
foram roídos, foram perdidos, doados ou simplesmente esquecidos, o
que, no mínimo, é um procedimento (o único que ele guarda) original.
Não ganhou nenhum prêmio em nenhum salão de humor. Por outro lado
também não participou de nenhum. Anônimo como um gato no telhado,
filosofa: "os cães ladram e é por isso mesmo que não desço de jeito
nenhum".
Tem medo da morte, da côrte, do norte, do forte e das coisas de
porte. Acha que a arte é a espinha dorsal da cultura e, ao notar que
está quebrada, tornou-se um fumante invertebrado. Andarilho,
noctívago, vadio, atravessa ruas como quem vadeia rios, pé ante pé,
procurando estrelas no céu da cidade, sabendo vagamente que está
procurando no lugar errado, sentindo que perde tempo mas pensando:
'há uns males que vêm para o bem e Unos Milles que vêm para te
atropelar. Por isso, fica esperto..!"
Impressionado com a carga do trabalho alheio, não cogita entrar numa
dessas: "não cogito, não ergo nem suo". Defende-se da acusação de
esquivo e indeciso com um mínimo de coerência, usando a máxima
filosófica: "penso, logo, hesito". Sobrevive às expensas da boa
fortuna que providenciou pais, parentes e amigos verdadeiramente
providenciais, com a exceção do fato de nenhum deles possuir
qualquer fortuna. Ou seja, tem costas largas a despeito de não ter
peito para enfrentar the whole wild world.
Sente-se pequeno frente a gigantesca maré dos tempos mas, em
compensação, eleva-se na companhia de amigos baixinhos. Acredita
piamente no ocultismo, o qual emprega sabiamente: "quando me oculto,
ninguém me acha." Diz que telepatia é coisa trivial, que a gente usa
toda hora (falando, ué..) e funciona até no escuro, "menos entre
pessoas surdas-mudas."
Crê que após o ano 2001 seu trabalho anterior será visto com novo
interesse, não só pelo aprimoramento de quem desenha sem parar mas
principalmente pelo seu valor histórico: serão obras do milênio
passado.
Enquanto isso pede 'mesa' e espera no que vai dar.
Guga Schultze
gugashu@ig.com.br |
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10/09/2008 |
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