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Augusto dos Anjos
Carlos Sepúlveda
Consta que Augusto dos Anjos, ao ver impresso seu livro, não teve dinheiro para
compor a capa. Faltava tinta. Tomou então de uma tesoura e cortou (como no
clássico soneto) o dedo de sua singularíssima pessoa e com o sangue escreveu o
título - EU.
A tradição editorial mantém, até hoje, vermelha a cor predominante na capa, como
uma espécie de homenagem a este poeta que fez de si mesmo, ou melhor, de sua
dissolução o tema único de sua única obra.
A poesia de Augusto dos Anjos permanece um enigma, porque contraria as lições da
Teoria Poética e Literária. Seus críticos reconhecem, em sua obra, lampejos de
genialidade quanto a presença de certo mau gosto e exageros barrocos, sobretudo
em seu acervo semântico, espetacularmente centrado num certo naturalismo
escandaloso e obsessão patológica.
Em tudo e por tudo, a poesia brasileira moderna seguiu um caminho muito
diferente daquele que seu texto indica. Tornou-se, sobretudo por influência de
João Cabral, uma poesia cerebral, econômica, concentrada, poesia do menos como
diria ilustre crítico atual. Tudo ao contrário dos exageros, dos desesperos
confessionais do EU patológico e expressionista de Augusto dos Anjos, um Hamlet
dos trópicos.
No entanto, o interesse por sua obra só faz aumentar, especialmente entre
adolescentes que entram em contato com seus poemas. Desde a primeira edição, em
1912, já se contam mais de cinqüenta as reedições e reimpressões deste livro
único e fora do lugar.
Já não se trata mais de um fenômeno estritamente literário; trata-se muito mais
de uma questão psicossocial, porque, sem dúvida, este paraibano melancólico e
hamletiano, conseguiu expressar-se num idioma em conflito com o tropical sol de
nossa poesia, o que não deixa de ser espantoso.
O texto aqui estabelecido partiu da 29a edição, comemorativa do cinqüentenário
de nascimento do poeta, anotada por Francisco de Assis Barbosa, seu primeiro
crítico relevante.
As correções e eventuais modernizações do texto procuraram seguir, sempre que
possível, a vontade autoral, por meio da lição do texto.
http - //www.bn.br/bibvirtual/acervo/eu.htm
Cronologia
Augusto dos Anjos
1884 - Nasce Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, no engenho Pau d’Arco, Vila
do Espírito Santo, Paraíba, a 20 de abril.
1900 - Matricula-se no curso de Humanidades do Liceu Paraibano. Conhece Santos
Neto e Órris Soares ( tio avô de Jô Soares), de quem se torna amigo. Publica o
primeiro trabalho, o soneto " Saudade " , no Almanaque do Estado da Paraíba.
1901 - Inicia sua colaboração no jornal O commercio, na capital paraibana.
1903 - Ingressa na Faculdade de Direito do Recife, Pernambuco.
1904 - Publica no jornal "O Commercio" o célebre soneto "Vandalismo" .
1905 - Morre seu pai, Alexandre Rodrigues dos Anjos, a 13 de janeiro.Seis dias
depois publica os três sonetos "A meu pai doente", "A meu pai morto", "Ao sétimo
dia do seu falecimento".
1906 - Publica no jornal "O Commercio" seu soneto mais famoso "Versos íntimos".
1907 - Conclui o curso de Direito.
1908 - Leciona Literatura no Liceu Paraibano, como professor interino.
1909 - Inicia sua colaboração no diário oficial do Estado, "A União".
1910 - Casa-se com dona Ester Fialho, a 4 de julho. Transfere-se para o Rio de
Janeiro, em outubro desse ano.
1911 - Nasce morto seu primeiro filho, a 2 de fevereiro. Leciona Geografia na
Escala Normal, como professor interino, e também no colégio Pedro II
1912 - Publica o livro EU, custeado pelo seu irmão Odilon, pelo total de 550.000
réis em tiragem de 1000 exemplares. O livro é recebido com grande impacto e
estranheza por parte da crítica, que oscila entre o entusiasmo e a repulsa.
Nasce sua filha, Glória.
1913 - Nasce seu filho Guilherme.
1914 - É nomeado diretor do grupo escolar Ribeiro Junqueira, em Leolpoldina,
Minas Gerais, a 1o. De julho. Muda-se para Leolpoldina, em 22 do mesmo mês.
Morre a 12 de novembro.
1920 - Publica-se Eu e Outras Poesias - reedição do EU, completado com uma
coletânea de versos póstumos, Outras Poesias, organizados pôr Órris Soares,
também prefaciador do volume.
1928 - Lançamento da terceira edição de suas poesias, pela livraria Castilho do
Rio de Janeiro, com extraordinário sucesso de crítica e público. |