Todos os textos, exceto quando indicados, são de autoria de Luiz Carlos "Barata" Cichetto e registrados na Fundação Biblioteca Nacional. Não é permitida a publicação em nenhum meio de comunicação sem a prévia autorização do autor. Bem como o uso das marcas "A Barata" e "Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade".

 

Aquele Dia o Palhaço Gargalhou
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Luiz Carlos "Barata" Cichetto
barata.cichetto@gmail.com
Aquele dia o palhaço amanheceu deprimido. Não tinha tanta graça assim ser palhaço, pensou. Afinal sua única função na vida era alegrar a aquelas pessoas que, tristes, tinham em sua figura esquálida e patética, momentos de uma hipócrita alegria. Sua depressão naquele dia não era a depressão comum dos palhaços. Não era existencial, mas doía e corroia a alma do mesmo jeito que lhe doía a coluna que sustentava havia mais de 70 anos um corpo maltratado.

Mas no fundo tinha orgulho de ser um palhaço. Um orgulho que lhe fazia brincar com aquelas crianças chatas cujos pais não tinham a capacidade de lhes alegrar, confiando a ele este fardo. Em inúmeras oportunidades entretanto, seu desejo foi de estrangular aquela loirinha que não parava de lhe puxar o nariz de plástico, trucidar aquele mulatinho que lhe pisava os sapatões que por si só já lhe causavam incômodo e dor suficientes, trucidar com ares de sadismo aquele moleque cheio de sardas que queria porque queria lhe arrancar a peruca de careca.

As crianças atualmente não tinham mais para com os palhaços a mesma fantasia e o mesmo respeito de antes, sempre dizia ele á sua colega de circo, uma ex-trapezista que era conhecida como "Beleza Voadora" e que engordara abundantemente e agora era apenas "A Mulher Gorda". Ela tentava lhe acalmar dizendo que "Criança vai sempre ser criança, do mesmo jeito que palhaço sempre vai ser palhaço." Mas ela falava mesmo por falar, porque também não acreditava em nenhuma daquelas palavras. E a "Mulher Gorda" e o "Palhaço" se abraçavam e algo naquele momento dava a eles a esperança e a falsa sensação de conforto que apenas duas almas solitárias e sofridas podem dar uma a outra.

Mas ele tinha profundo orgulho em ser o que era, apenas um palhaço. Um palhaço. Um homem trajado de roupas ridículas , contando piadas sem graça, por um punhado de míseros trocados que mal lhe enchia a verdadeira barriga atrás daquele enchimento.

E, naquele dia sua depressão era maior que em qualquer outro e ele nem sabia ao certo porquê. Poderia ser a quantidade excessiva de bebida e cigarros que consumira na insone madrugada anterior. Ou seria mesmo a idade? Afinal, aos 72 anos não é tão fácil cometer aquelas estripulias todas sem sentir o peso no dia seguinte.

Sentou na beirada da guia da rua, tateou os bolsos até encontrar um cigarro. Acendeu, tragou com força e tossiu quando aquela primeira nuvem de fumaça do dia lhe atingiu o pulmão. Jogou longe o cigarro e em seguida acendeu outro. Ficou ali, sentado na guia, olhando os carros e as pessoas passarem e lhe olharem curiosos, porque afinal tinha esquecido completamente de retirar a maquiagem e mesmo a fantasia. O nariz artificial sim, pois aquilo lhe causava um desconforto terrível e sempre o tirava ainda no picadeiro.

Achou engraçado pensar o que aquelas mulheres rebocadas de batom e aqueles homens com seus ternos ridículos pensavam sobre sua maquiagem e fantasia de palhaço. Começou a rir. Riu muito, às gargalhadas Nem seu tutor e mestre, aquele que lhe inspirou a ser palhaço por sua graça espontânea tinha conseguido lhe fazer rir daquela forma.

Foram tantas e tão altas e tão espontâneas as gargalhadas que logo juntou um grupo de pessoas ao seu redor. O que teria acontecido com aquele palhaço? Lentamente , aquele grupo foi crescendo. Mulheres puxando maridos , crianças agarradas às cinturas das mães, empresários, mendigos, prostitutas... Uma pequena multidão se formou ao redor do palhaço que ria cada vez mais e mais alto, sequer lembrando porque começara a rir. Apenas o que sabia, era que aquela depressão que lhe acometia ao acordar tinha sumido.

As pessoas se entreolhavam, faziam comentários, abanavam as cabeças e exprimiam todos os tipos de sentimento enquanto o palhaço apenas ria, ria sem parar. Um policial ameaçou prendê-lo, mas foi impedido por aquela multidão que parecia extasiada em ver aquele homem velho, com a pele enrugada coberta de panos coloridos rir, rir, rir muito.

Era engraçado aquilo. Muito engraçado, ainda pensou. E pensou mais: que nunca tinha estado tão bem, nunca a felicidade lhe fora tão completa. E ainda pensou como era bom ser palhaço antes que aquela dor fulminante lhe transpassasse o peito. O som da última gargalhada foi abafado por um urro e um gemido. As mãos enrugadas cobriram o rosto maquiado que se contorcia em dor. Segundos depois, aquele corpo fantasiado de morte jazia sobre a sarjeta, inerte, com os sapatões espalhados pela calçada e a cabeça no meio fio. Nenhuma gota de sangue, apenas gotas de suor gelado na testa, misturado á grossa maquiagem.

Lentamente, sem um som, muda e séria, aquela multidão abandonou o espetáculo, deixando para trás um espetáculo que sequer tinham pago para assistir. Lentamente também, a noite caiu cobrindo de sereno aquele corpo morto, mas que conservava no rosto uma expressão de alegria nunca fora vista no rosto de nenhum outro palhaço.
9/5/2001
Registro no E.D.A. da F.B.N. : 513.629 - Livro 973 - Folha 475
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