A Barata - Liberdade de Expressão e Expressão de Liberdade - Barata Cichetto

Rodape

 
 


Contos Sinistros
Autor:
Felipe Cerquize
Editora:
Litteris Editora
E-Mail:
Em 2007, em parceria com o escritor Felipe Cerquize, A Barata promoveu um concurso literário com o tema "Contos Sinistros", livro homônimo do autor. Tendo por jurados escritores e colunistas de A Barata. Foram centenas de inscritos e os 5 primeiros contos premiados estão nestas páginas. A ordem é a de classificação no concurso.
 
Insolitus
Dalva Agne Lynch
dalvalynch@terra.com.br
Classificação no Concurso: 1
Biografia do Autor: Dalva Agne Lynch é escritora diversas vezes premiada, no Brasil e no exterior. Pesquisa religiões e mitos, tendo publicado estudos, monografias, cursos e documentários a respeito. Escreve em português e inglês, com publicações em revistas e jornais do Brasil, EUA, Inglaterra, Austrália, Israel e Portugal. Participou de muitas Antologias de prosa e poesia. Como artista plástica, retrata temas religiosos e mitológicos, com diversas exposições coletivas e solo. Lynch nasceu em Porto Alegre, RS, viveu grande parte de sua vida adulta no exterior, e mora atualmente em São Paulo, capital. LIVROS: "Às Portas da Noite", Ed. Blocos; "A Hora da Espada", Ed. Scortecci; o livreto "Heavenly Elite", Christian Research Institute Magazine, EUA; colaborações em inúmeras antologias. E books: "Nos Jardins Sagrados", CEN; "A Hora da Espada", AVBL.
A casa estava em silêncio quando abri a porta. Brinquedo de criança - a fechadura saiu inteira na minha mão, e nem fez muito barulho. Caminhei pelo longo corredor escuro, cambaleando. Malditas pernas! A imobilidade de tantos anos me havia atrofiado os movimentos. Sem problemas - se o que eu observara de meu próprio organismo era real, logo eu me regeneraria. Rapidinho.

Abri a porta do quarto deles sem ruído. Lá estavam, pacificamente dormindo, como se fossem inocentes. Senti uma onda de raiva subindo. Caminhei até a beira da cama e enfiei o dedo na boca escancarada da vaca que se dizia minha mãe. Ela acordou e arregalou os olhos, mas não soltou mais que um gemido quando meus dentes se cravaram em sua carne macia e flácida. Depois caiu como um trapo velho no travesseiro. O cara deitado ao seu lado, e que acreditava ser meu pai - pobre corno! - nunca despertou. Ele não me interessava - já era o castigo de si mesmo. Abri a janela e saltei.

Droga! Esqueci que estava no segundo piso! Espatifei-me no gramado, mas já me sentia revigorado. Limpei o pijama esfrangalhado e saí à rua.
A primeira coisa era conseguir roupas. Vi uma figura em sobretudo no fim da rua. Ele carregava uma pasta e caminhava rapidamente, curvado. Senti seu medo, e isso me excitou. Corri em sua direção. Engraçado, não faço barulho.

O sujeito caiu fácil. Sangue escorrendo pelo queixo, limpei-me nos farrapos do pijama e vesti a roupa do incauto ali caído. Ainda bem que ele era alto e magro, porque não ia ficar bem andar por aí de calça curta e sobrando braço pra fora das mangas. O problema foram os sapatos - eu não estava acostumado a usar sapatos, e não sabia amarrar os laços. Dei um nó e segui em frente, arrastando os pés desajeitadamente. Besteira, essa de sapatos.

Em um beco escuro, dois animais brigavam por um pedaço de comida. Aproximei-me para ver o que era. Os bichos deram um ganido e correram, cada um em uma direção. Que coisa! Será que sou tão feio assim?

Olhei-me no vidro de uma loja, sob a luz do poste. Cabelo liso caindo em torno de uma face longa e fina. Gostei do que vi.
As meninas da esquina também gostaram. Elas caminharam em minha direção dando risadinhas idiotas, com muita perna de fora se equilibrando em saltos monumentais. Uma delas tinha o cabelo preso no alto da cabeça, o pescoço fino e moreno brilhando. Senti minhas mãos tremerem.
Nem sei se elas falaram alguma coisa. Deixei as duas jogadas no beco onde os animais estavam comendo a coisa que não identifiquei. Minhas pernas não estavam mais frouxas, e eu nem sentia mais os malditos sapatos.

Algumas esquinas mais tarde, havia um enorme casarão pintado de preto. Diversas pessoas se reuniam em grupos barulhentos à frente da porta, e ouvi um som cadenciado vindo de dentro. Tentei entrar, mas um sujeito careca e forte me parou. Ou paga, ou não entra. Olhei naqueles olhos aparvalhados e ele nem se mexeu. Entrei.
O lugar estava lotado de pessoas. Fui olhando aquelas caras semelhantes à que eu vira na vitrine da loja. Porra, estou no lugar certo! Ensaiei um sorriso e recebi tapas nas costas e boas-vindas. Uma mulher com uma enorme estrela pendurada no pescoço se roçou contra mim, e algo se moveu no meio das minhas pernas. Ela me puxou para a sala ao lado e me sentou em um sofá duro e rasgado.

Ela era perfumada e firme. Molhei toda a frente das calças do homem alto de quem as tirara, mas estava escuro e não importava. Quando pensei no pescoço branco, era tarde demais. Ela tinha sumido.

Fiquei caminhando entre aquela gente toda. Que coisa, não se sentir sozinho! Mas aos poucos o lugar começou a esvaziar. No fim, era só eu e o cara atrás do balcão, vendendo bebida. Já fechou, meu, te manda! Caminhei em direção a ele e ele mudou de cara. Logo não tinha mais cara, só uma coisa branca, de olhos escancarados. Limpei a boca na manga do sobretudo, e me vi sendo arrastado para a porta. Tentei me desvencilhar, mas a porta se abriu e caí na sarjeta, agarrado por não sei quantas mãos.

O sol havia nascido. Caiu em cheio na minha cara, e de repente não vi mais nada. Só o corpo de um cara de longos cabelos loiros, deitado na rua, sobretudo manchado e sapatos amarrados com um nó.

Abri as asas e entrei no escuro bem-vindo sob as telhas da casa.

 


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10/09/2008

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