Qualquer
coisa que é proposta com relação ao conceito "drogas" sempre esbarra
no preconceito. A primeira coisa é o autor ser tachado de apólogo. A
polêmica a respeito do assunto é tão grande quanto à definição.
Quando desejamos debater um assunto, acredito que a primeira coisa
que precisamos ter em mente é a definição clássica. Aí começam os
problemas. O próprio consagrado dicionário Aurélio, oferece
definições em língua portuguesa que incitam á polêmica. Termos como
"Medicamento ou substância entorpecente, alucinógena, excitante,
etc., ingeridos, em geral, com o fito de alterar transitoriamente a
personalidade", "Coisa de pouco valor", "Coisa enfadonha", "Qualquer
substância ou ingrediente que se usa em farmácia...".
Sempre associada ao "vício", a palavra "droga" e seus diversos
axiomas e paradigmas, sempre suscitou debates inflamados, críticos
hipócritas, defensores medrosos ou análises pouco profundas. Não
necessariamente drogas se tornam vícios, mas para efeito de análise
mais profunda e ampla, iremos manter desta forma, analisando e
debatendo de forma ampla a "droga", mesclada ao "vício". Para efeito
de nossas análises vamos subverter a definição aureliana,
modificando "medicamento ou substância" para "coisa". Mesmo porque
existem "drogas" muito poderosas que têm "o fito de alterar
transitoriamente a personalidade", que não são "medicamentos ou
substâncias". As novelas e as religiões, por exemplo. Outras são
"medicamentos ou substâncias" que não tem "o fito de alterar
transitoriamente a personalidade", como o cigarro comum.
A frase "sexo, drogas e rock'n'roll" foi por muito tempo usada
abertamente e acabou criando um estigma de que todo mundo que gosta
desse gênero musical é drogado. As casas e bares onde é tocado esse
tipo de música sofrem perseguições por este preconceito. Mas as
"drogas" estão por toda parte e nas casas mais "insuspeitas".
Quando é noticiado um crime hediondo, a primeira coisa que as
pessoas fazem é afirmar que o criminoso é ou está drogado. Uma
afirmação que, mais do que culpar a droga pelo ato, serve de
atenuante ao criminoso. O tiro aí sai pela culatra. Existem pessoas
más e pessoas boas que usam drogas. A droga não faz com que pessoas
boas se tornem más ou vice-versa.
E quando falo em drogas neste caso, estou falando não apenas do que
vem a mente da maioria quando o termo é usado, não estou falando
apenas de maconha ou cocaína, estou falando de bebida, de remédios,
de religião, de informática, de sexo, de música, de qualquer coisa
que altere o comportamento e ou que vicie. Em "As Portas da
Percepção" Huxley fala da fome como poderoso alucinógeno; existem
autores e cientistas que defendem o uso da maconha como remédio e
muitas tribos indígenas usam substâncias tidas como drogas em
sociedades "civilizadas" como tal. Portanto é ai onde entra o mote
deste debate que estamos abrindo aqui. O objetivo é a discussão
sobre o que é droga, quais os tipos de droga, porque existem drogas
"legais" e "ilegais".
Sou tabagista alucinado, fumo três carteiras de cigarros por dia. Um
amigo que fuma maconha um dia me disse: "Eu não sou drogado, drogado
é você. Eu fumo maconha, mas um ou dois baseados por dia e você fuma
60 cigarros por dia". Acho que ele está muito correto. Da mesma
forma que uma pessoa que não consegue ficar um dia sem ver o
capítulo da novela das oito, que embota sua mente com a religião ou
que não consegue ficar um dia sem fazer sexo também é mais drogado
que meu amigo.
Algumas frases sobre drogas que podem nos servir como embasamento
neste debate. "Bêbados não marcham!", "Droga não é o mal. A droga é
um composto químico. O problema começa quando pessoas tomam drogas
como se fosse uma licença para poderem agir como babacas". Estas
frases são atribuídas a Frank Zappa; "A minha alucinação é suportar
o dia a dia, e o meu delírio é a experiência com coisas reais",
Belchior, na música "Alucinação".
A idéia do projeto "Drog'As Baratas" é abrir um debate amplo e sem
preconceito nem censura sobre o assunto "Drogas". Diferentes pontos
de vista serão bem vindos. Detratores e defensores, apólogos e
teólogos. Dentro do espírito que norteia "A Barata: "Liberdade de
Expressão e Expressão de Liberdade". Alguns dos temas propostos
são: A Droga da Maconha, A Droga da Religião, A Droga da Cocaína, A
Droga da Televisão. A Droga do Remédio, A Droga do Trabalho, A Droga
da Internet, A Droga do Sexo. Outros podem ser propostos e todos os
textos poderão e deverão ser debatidos.
Apenas com o intuito de dar uma relaxada num debate sobre um tema
forte e polêmico, a frase de um outro amigo "maconheiro" (não existe
nada mais idiota do que este termo e toda a carga de preconceito que
ele carrega): "Maconha faz mal á memória e outra coisa que esqueci".
Barata Cichetto
11/2003 |