O planeta, o universo. Nasci ha dez mil anos atrás era lógico, mesmo se não tivéssemos nascidos as historias eram contadas como conto de fadas que se tem pó de pirlim pim pim.
Claro que também sonhava, tinha meu príncipe encantado, aquele que ia construir meu castelo, mas justamente nessa época meu príncipe encantado pegara seu cavalo branco e hoje concluo que foi cavalgar atrás de outras princesas.
Foi providencial para mim. Estava vivendo uma historia intensa. Escrevia muito para ele. Escrever se tornara uma escola que nunca mais largaria na vida. Chamavam-me de escritora intuitiva, pois minha informação era o que estava vivendo, meu medo do escuro, a luta da mulher, tudo que via e vivia nas ruas de são Paulo.
Sempre investíamos no apartamento, visitas e visitas e Raul dormia, e Vivi pulava para entrarmos e kika fazia um pouco de sala, não cabia a eu achar natural ou não Aliás, o que era natural.
Com tudo isso ao meu redor ainda estudava, só via sentido na matéria da língua portuguesa, devorava as metáforas e figuras de linguagem. Isso me ajudava a escrever.
Ouvia dos adultos que precisava escrever um livro, mas nunca achara oportunidade, por isso Raul cantava. Mas eu também precisava falar e me tornava cada vez mais distante do convencional, como Raul era um modo de pedir socorro, eu não estou entendendo nada, preciso de alguém que me explique, a coisa foi ficando cada vez mais forte e Raul conhecia definitivamente meu intimo.
Conseqüentemente sabia justamente o que falar. Varias bandas aconteciam em são Paulo. Nazi do grupo ira me apresentara joelho de porco, casas das maquinas, o terço e outras coisas. Mas queria ouvir Raul.
Ele nascera com um dom, era claro. Contar-me e que escrevia gibis quando criança e vendia para o irmão.
É tinha me encontrado e como ele ajudou. Tinha o dom da escrita, hoje aqui escrevendo sobre tudo isso, enxergo a pobreza desse país em relação à arte, pois possuo uma.
Estava para entrar no cursinho e queria muito fazer artes cênicas, mas meu pai não iria pagar o cursinho, pois teatro era coisa de prostituta, para agradá-lo resolvi então fazer jornalismo, tinha que fingir.
Num de nossos encontros Raul soube e me lembro que ficou tão inconformado quando contei. Ele sempre dizia. “Sou tão bom ator, finjo que canto e todo mundo acredita”.
É tinha que fingir também. Hô seu moço do disco voador me leva com você pra onde você for seu moço, mas não me deixa aqui enquanto eu sei que tem tantas estrelas por ai.
Percebem? Quem sabe a forma mais liberta era partir num disco voador? Formigas que trafegam sem por que.
Era inadmissível ver o ser humano sem direito à liberdade até de como ia se manifestar na vida.
A palavra chave da historia do alcoolismo em Raul era inspiração. O álcool lhe inspirava, era fato, e realmente ele não se preocupava com ele.
Tinha que deixar tudo escrito, gravado para gerações que vinham. Lembro o vazio que sentia quando não conseguia achar uma frase que seja para dar continuação a uma letra que compunha.
Veja o poeta inspirado em coca cola, que poesia mais sem graça ele ia expressar. Entrou em crise quando soube que o carro seria movido a álcool e disse essa frase numa musica.
E eu não bebia tinha feito uma tentativa que não me fez bem. Mas diabético que era desde os trinta anos realmente estava agravando sua saúde mais e mais.
O fato é que era um bombardeio em nossas cabeças. Sabíamos exatamente o que acontecia politicamente falando naquela cidade, mas, não queríamos perder o tempo que tínhamos e falar sobre isso o deixava muito chateado o que eu compreendia muito bem. |